terça-feira, 29 de setembro de 2026

1 de outubro — Dia Internacional das Pessoas Idosas

Tempo do Ocaso: o Outono da Vida 

Quando penso nos idosos, inevitavelmente penso também nas crianças. Não porque sejam iguais, mas porque, em diferentes momentos da vida, podem tornar-se seres particularmente vulneráveis. E perante a vulnerabilidade, há dentro de nós qualquer coisa que desperta: queremos cuidar, proteger, amparar.

Uma criança chega ao mundo completamente dependente dos outros, muitas vezes de adultos descompensados de algum modo. Aterroriza, só de pensar. As crianças precisam de mãos que as segurem, de alguém que as proteja, que as alimente, que as ensine, que lhes dê segurança.

E um dia, muitos anos ou décadas depois, algumas pessoas idosas podem voltar a precisar dessas mãos. Talvez essa seja uma das coisas mais comoventes da vida: começamos por precisar dos outros para tudo (sobreviver, até) e, em certos momentos, podemos voltar a precisar deles.

Porém, há uma diferença fundamental: uma pessoa idosa não é apenas alguém que precisa de cuidados, é alguém que já viveu uma vida inteira. Antes de ser "o idoso", foi uma criança. Foi jovem. Amou, sofreu, trabalhou (imenso), teve sonhos, fez escolhas, perdeu pessoas, ganhou outras. Acertou e errou. Talvez tenha sido feliz. Talvez tenha carregado dores que nunca contou a ninguém. Ou se conta, morremos de pena que tenha sido assim e nada se pode fazer agora. As marcas ficam para sempre.

Às vezes sabemos, ou lemos, que existem idosos maltratados por familiares, abandonados, humilhados, negligenciados ou privados da dignidade que lhes deveria ser garantida. E perante isso, a nossa primeira reação é — e deve ser — de repúdio. Por vezes, ouvimos também: "Não sabemos o que aconteceu durante a vida dessa pessoa agora maltratada, como terá tratado também os demais”… Ignoramos que tipo de convivência existiu dentro daquela família, que feridas ficaram por tratar, que conflitos atravessaram décadas, que palavras foram ditas, que silêncios foram guardados.

Claro que compreender uma história não significa justificar os maus-tratos, há que saber distinguir o que é essencial. Podemos tentar perceber sem desculpar. Podemos reconhecer que uma pessoa pode ter cometido erros graves durante a sua vida e, ainda assim, afirmar que não merece ser humilhada, agredida ou abandonada. Porque a dignidade humana não deveria ser uma recompensa por termos sido perfeitos.

Talvez seja isso o que nos vem à mente neste dia. Não apenas que devemos cuidar dos idosos, mas que devemos olhar para eles como pessoas completas, com passado, personalidade, escolhas, memórias, contradições e sentimentos.

Alguns serão ternos. Outros serão bem difíceis de aturar. Alguns terão sido bons pais ou bons avós. Outros terão cometido erros que deixaram marcas profundas. Alguns estarão rodeados de amor. Outros estarão completamente sós. Tal como acontece com qualquer outro ser humano.

E talvez por isso eu continue a pensar nas crianças quando penso nos idosos. Porque ambos nos lembram da nossa própria fragilidade. A criança lembra-nos que todos começámos por depender de alguém. O idoso lembra-nos que o tempo passa para todos nós. E entre esses dois momentos existe uma vida inteira — a nossa, a dos nossos pais, a dos nossos avós, a de todos aqueles que vieram antes de nós.

Talvez devêssemos perguntar: "Que sociedade queremos construir para quando chegar a nossa vez de precisar dos outros?" Porque um dia, de uma forma ou de outra, todos nós iremos descobrir o que significa precisar de alguém. E nesse dia, espero que ainda vivamos numa sociedade onde cuidar não seja um peso, onde a vulnerabilidade não seja motivo de desprezo e onde a dignidade não tenha idade.

Feliz Dia Internacional das Pessoas Idosas. Que saibamos olhar para os mais velhos não apenas com pena, mas sobretudo com humanidade, respeito e gratidão.

 


segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Vem Outono, devagar

Amanhã começa o outono. 🍂Diz o calendário que é tempo de mudar. Mas lá fora o verão ainda insiste. O sol continua generoso, o ar permanece quente e ainda está impossível imaginar casacos, dias de chuva ou o cheiro da terra molhada. No entanto, o outono vai chegar, devagarinho, quase em segredo, escondido na luz que começa a dourar ao fim da tarde, nos dias que se despedem um pouco mais cedo, naquela sensação subtil de que alguma coisa está a mudar — mesmo quando ainda não conseguimos vê-la.

Chegará como chegam certas mudanças na nossa vida: primeiro quase não damos por elas, depois percebemos que alguma coisa já não é exatamente igual.

É tempo de guardar: fotografias, tardes, conversas, lugares, pequenos momentos que não queremos esquecer. Guardar aquilo que o verão nos deixou antes que o tempo, inevitavelmente, comece a levar algumas coisas consigo. E é também tempo de deixar ir.

As folhas sabem disso melhor do que nós. Quando chega o momento, simplesmente soltam-se. Talvez haja uma certa sabedoria nessa maneira tão tranquila de partir.

Entretanto, ainda continuamos de sandálias, janelas abertas, corpos suados, ou procurando a sombra nos finais de tarde na praia, no rio ou no parque para aproveitar este inesperado verão em final de setembro.

As folhas terão tempo para mudar. Frio, também tens tempo, vem devagar! Por agora, deixemos o outono chegar à sua maneira, bem devagarinho. Bem-vindo, outono. Mesmo que ainda cheires a verão. 🤎🍁



quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Haja Paz e Paciência :-)


A nossa vida transforma-se incrivelmente a partir do dia em que a gente acorda, diminui as expectativas sobre os outros, desiste de esperar que alguém cuide de nós, abandona as esperanças de que algo vai chegar e mudar o nosso destino, e passa a investir mais em si mesmo, no nosso crescimento físico, emocional e espiritual. É preciso aprender a cuidar da própria energia e entender que a nossa vida é responsabilidade de cada um de nós. O nosso mundo interior é a casa onde passamos toda a existência. É nosso dever cuidar, limpar, organizar os nossos pensamentos, lembranças e sentimentos e fazer dela um bom lugar para se viver. Se existe algo em que vale a pena investir é em nós mesmos. Porque a vida não é sobre encontrar alguém, é sobre encontrar-se, e estar o mais sadio possível internamente para fazer dos nossos encontros e conexões os melhores possíveis. Pois a melhor fase da nossa vida começa quando começamos a cuidar da nossa própria energia e a fazer brilhar a nossa luz.

Não está muito fácil encontrar gente sã, de corpo e mente. Sinais dos tempos, provavelmente. Ou terá sido sempre difícil, agora é que há mais tempo e mais conhecimento para analisar. E eu confesso: perco a paciência, muitas vezes.

Sem paciência para conversas da treta, o tal blablabla sem fim; para ouvir falar do que não me interessa minimamente; para escutar quem não me diz nada nem nunca vai dizer; quem só está bem a fazer julgamentos, falando de histórias ou pecados alheios.

Já não tenho paciência para egos inflados, para a mediocridade, o mais-ou-menos, o “tem de ser”, o “é a vida”; para quem nunca consegue ver o lado positivo de cada situação, e ainda desdenha de quem é diferente e sabe ser feliz com tão pouco.

Já não tenho paciência para gente preconceituosa; gente fútil, que apenas quer açambarcar coisas, ou acumular cargos, poder ou dinheiro - o chamado “venha a nós o vosso reino” e os outros que se lixem. 

Já não tenho paciência para algo que não me apaixone, que não mexa comigo, que não me arrebate, que não me faça sentir, chorar de alegria ou outro sentimento qualquer, saltar, dançar, voar. 

Já não tenho paciência. Para quem nunca admite que falha e se engana algumas vezes; para quem se julga iluminado, imortal, sempre com razão, sempre irrepreensível, sempre “o maior da sua rua”. 

É isso, a paciência vai se esgotando aos poucos. Já só quero quem falha como eu, quem se engana ou quem cai como eu, quem é insuficiente como eu, quem tenha defeitos como eu, quem às vezes está triste, desmotivado, até infeliz, mas mesmo assim sempre pronto para encostar a cabeça num ombro amigo e desabafar, como eu. Afinal, todos morreremos um dia, chegando a tal hora marcada, dizem, faça o que se fizer… Carpe Diem!