Tempo do Ocaso: o Outono da Vida
Quando penso nos idosos, inevitavelmente penso também nas crianças. Não porque sejam iguais, mas porque, em diferentes momentos da vida, podem tornar-se seres particularmente vulneráveis. E perante a vulnerabilidade, há dentro de nós qualquer coisa que desperta: queremos cuidar, proteger, amparar.
Uma criança chega ao mundo completamente dependente dos
outros, muitas vezes de adultos descompensados de algum modo. Aterroriza, só de
pensar. As crianças precisam de mãos que as segurem, de alguém que as proteja, que
as alimente, que as ensine, que lhes dê segurança.
E um dia, muitos anos ou décadas depois, algumas pessoas
idosas podem voltar a precisar dessas mãos. Talvez essa seja uma das coisas
mais comoventes da vida: começamos por precisar dos outros para tudo (sobreviver,
até) e, em certos momentos, podemos voltar a precisar deles.
Porém, há uma diferença fundamental: uma pessoa idosa não é
apenas alguém que precisa de cuidados, é alguém que já viveu uma vida inteira. Antes
de ser "o idoso", foi uma criança. Foi jovem. Amou, sofreu, trabalhou
(imenso), teve sonhos, fez escolhas, perdeu pessoas, ganhou outras. Acertou e
errou. Talvez tenha sido feliz. Talvez tenha carregado dores que nunca contou a
ninguém. Ou se conta, morremos de pena que tenha sido assim e nada se pode
fazer agora. As marcas ficam para sempre.
Às vezes sabemos, ou lemos, que existem idosos maltratados
por familiares, abandonados, humilhados, negligenciados ou privados da
dignidade que lhes deveria ser garantida. E perante isso, a nossa primeira
reação é — e deve ser — de repúdio. Por vezes, ouvimos também: "Não
sabemos o que aconteceu durante a vida dessa pessoa agora maltratada, como terá
tratado também os demais”… Ignoramos que tipo de convivência existiu dentro
daquela família, que feridas ficaram por tratar, que conflitos atravessaram
décadas, que palavras foram ditas, que silêncios foram guardados.
Claro que compreender uma história não significa justificar
os maus-tratos, há que saber distinguir o que é essencial. Podemos tentar
perceber sem desculpar. Podemos reconhecer que uma pessoa pode ter cometido
erros graves durante a sua vida e, ainda assim, afirmar que não merece ser
humilhada, agredida ou abandonada. Porque a dignidade humana não deveria ser
uma recompensa por termos sido perfeitos.
Talvez seja isso o que nos vem à mente neste dia. Não apenas
que devemos cuidar dos idosos, mas que devemos olhar para eles como pessoas
completas, com passado, personalidade, escolhas, memórias, contradições e
sentimentos.
Alguns serão ternos. Outros serão bem difíceis de aturar.
Alguns terão sido bons pais ou bons avós. Outros terão cometido erros que
deixaram marcas profundas. Alguns estarão rodeados de amor. Outros estarão
completamente sós. Tal como acontece com qualquer outro ser humano.
E talvez por isso eu continue a pensar nas crianças quando
penso nos idosos. Porque ambos nos lembram da nossa própria fragilidade. A
criança lembra-nos que todos começámos por depender de alguém. O idoso
lembra-nos que o tempo passa para todos nós. E entre esses dois momentos existe
uma vida inteira — a nossa, a dos nossos pais, a dos nossos avós, a de todos
aqueles que vieram antes de nós.
Talvez devêssemos perguntar: "Que sociedade queremos
construir para quando chegar a nossa vez de precisar dos outros?" Porque
um dia, de uma forma ou de outra, todos nós iremos descobrir o que significa
precisar de alguém. E nesse dia, espero que ainda vivamos numa sociedade onde
cuidar não seja um peso, onde a vulnerabilidade não seja motivo de desprezo e
onde a dignidade não tenha idade.
Feliz Dia Internacional das Pessoas Idosas. Que
saibamos olhar para os mais velhos não apenas com pena, mas sobretudo com humanidade, respeito e gratidão.
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